A cerca de cinco meses da eleição presidencial, o confronto entre expoentes da direita e o Supremo Tribunal Federal ganhou contornos de estratégia política. Pré-candidatos passaram a mirar diretamente ministros da Corte, ao mesmo tempo em que decisões judiciais ampliam o embate.
O caso mais imediato envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele virou alvo de investigação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes após uma publicação nas redes sociais em que atribuiu crimes ao presidente Lula (PT). A apuração nasceu a partir de um pedido da Polícia Federal, com aval da Procuradoria-Geral da República.
Foto: Reprodução redes sociais
A resposta do congressista foi transformar o episódio em discurso. Flávio passou a afirmar que Moraes tenta interferir no processo eleitoral e disse que o ministro busca “desequilibrar as eleições” por meio de investigações. Também voltou a criticar o Inquérito das Fake News, que, segundo ele, seria usado para atingir adversários.
O movimento não ocorre isoladamente. Aliados do senador tratam a briga com o STF como forma de intensificar a polarização, incorporando a Corte ao rol de adversários ao lado do governo Lula.
Dinâmica semelhante se desenha no caso do ex-governador Romeu Zema (Novo). Ele entrou na mira do Supremo após o ministro Gilmar Mendes pedir sua inclusão no Inquérito das Fake News, em razão de um vídeo com críticas e sátiras a integrantes da Corte. O pedido foi encaminhado ao relator, Alexandre de Moraes.
Zema reagiu elevando o tom. Criticou o funcionamento do STF, questionou a condução de investigações e passou a defender o impeachment de Gilmar. O ex-governador disse esperar que o Senado tenha “coragem” para analisar pedidos contra o ministro e afirmou que a Corte deixou de ser apenas árbitro institucional para se tornar um “causador de conflitos”.
O embate escalou também no campo pessoal. Gilmar chegou a criticar o pré-candidato publicamente e depois recuou. Zema respondeu com ataques ao que chamou de postura “esnobe” de ministros, ampliando a tensão.
Nos dois casos, o padrão se repete. As críticas públicas ao STF são seguidas por reações institucionais, que, por sua vez, alimentam o discurso dos pré-candidatos. O confronto passa a funcionar como ativo eleitoral, especialmente entre eleitores que veem excesso de protagonismo do Judiciário.
O ministro do STF Gilmar Mendes e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema. Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil e Marina Ramos/Câmara dos Deputados
Enquanto isso, o governo Lula tenta se equilibrar. O Partido dos Trabalhadores discute mudanças no Judiciário, como maior transparência e criação de códigos de ética para tribunais superiores, mas evita transformar o tema em eixo central da disputa neste momento.
Há sinais de distanciamento do STF, sobretudo após episódios recentes que desgastaram a imagem da Corte, mas sem adesão ao tom de confronto adotado por adversários. Parte das propostas, inclusive, foi empurrada para depois das eleições.
No Supremo, o debate também se move. O ministro Flávio Dino apresentou sugestões de reforma do Judiciário, defendendo mudanças estruturais para melhorar o funcionamento do sistema e ampliar a confiança pública. Ao tratar do tema, criticou leituras simplificadas sobre “autocontenção” do tribunal e defendeu soluções mais amplas para os problemas.
Neste cenário, o Supremo deixa de ser apenas árbitro e passa a ocupar lugar central na corrida eleitoral, seja como alvo ou como fator de equilíbrio em um ambiente cada vez mais tenso.






