Início GERAL Disputa presidencial cria novo desafio para candidatos ao Governo de MT

Disputa presidencial cria novo desafio para candidatos ao Governo de MT


Lula e Flávio Bolsonaro, os principais candidatos à presidente da República

A campanha pelo Governo de Mato Grosso começa a ser atravessada por uma disputa que acontece a mais de 1,5 mil quilômetros do Estado. A eleição presidencial entra no cálculo das principais candidaturas estaduais e cria situações diferentes para Wellington Fagundes (PL), Otaviano Pivetta (Republicanos) e Natasha Slhessarenko (PSD).

Wellington tem o vínculo nacional mais definido. O PL oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência em convenção realizada no dia 25 de julho, e o senador mato-grossense participou do encontro. A candidatura presidencial, entretanto, chega à eleição sem conseguir reunir nacionalmente outras importantes legendas de centro e direita. Republicanos e Progressistas, por exemplo, optaram pela neutralidade nacional.

Pivetta está justamente no Republicanos. Assim, embora dispute o Governo apoiado em Mato Grosso por partidos identificados com o campo de centro-direita, inicia a campanha sem obrigação partidária de subir no palanque de Flávio Bolsonaro.

INFO palanque nacional

INFO palanque nacional

Natasha aparece numa situação diferente. Sua candidatura conseguiu concentrar as principais forças do campo de esquerda em Mato Grosso, dando à campanha estadual maior correspondência política com a disputa nacional.

O resultado é uma eleição estadual na qual os palanques para governador e presidente não se encaixam perfeitamente.

WELLINGTON TEM FLÁVIO, MAS ENFRENTA DIVISÕES EM MT

Para Wellington, a candidatura presidencial pode funcionar como elemento de identidade política da campanha.

O senador participou da convenção nacional que oficializou Flávio Bolsonaro e vem destacando publicamente a ligação entre os projetos nacional e estadual. Antes disso, já havia recebido manifestação de apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar o Palácio Paiaguás.

A dificuldade de Wellington está menos na definição presidencial e mais em fazer com que esse alinhamento produza unidade dentro do próprio campo político em Mato Grosso.

O PL chegou à campanha estadual enfrentando divergências depois da construção da chapa e da aproximação com o MDB. A presença de Janaina Riva na disputa pelo Senado ao lado dos liberais provocou resistência em segmentos do partido.

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, e outras lideranças do PL já manifestaram desconforto com a composição. José Medeiros, candidato da própria legenda ao Senado, também precisa dividir o espaço eleitoral com uma candidata de outro partido.

Assim, Wellington vive uma espécie de paradoxo.

Tem um candidato presidencial claramente definido, mas ainda precisa organizar o próprio palanque estadual.

A estratégia tende a explorar a identificação do eleitorado mato-grossense com o campo bolsonarista, ao mesmo tempo em que a campanha terá de administrar as diferenças internas produzidas pelas alianças locais.

Há ainda outra questão: a composição partidária construída para a eleição estadual é necessariamente mais ampla do que o PL.

Isso exige conciliar a identidade nacional da candidatura com aliados que podem ter estratégias próprias para a eleição presidencial.

PIVETTA TEM O PROBLEMA INVERSO

Pivetta começa em situação praticamente inversa.

Sua candidatura ao Governo reúne Republicanos, União Brasil e outras forças do campo de centro-direita, mas o partido do governador decidiu não aderir formalmente a uma candidatura presidencial.

A decisão nacional do Republicanos faz parte de um movimento mais amplo. Mesmo ideologicamente próximas da direita, algumas legendas preferiram a neutralidade na corrida presidencial para preservar estratégias estaduais e ampliar sua capacidade de formar alianças. A Reuters aponta Republicanos e Progressistas entre os partidos que não aderiram nacionalmente a Flávio Bolsonaro.

Para Pivetta, a decisão oferece liberdade, mas também cria uma indefinição.

Sem um presidenciável próprio, o governador precisa decidir se fará uma escolha individual, se dividirá o palanque entre candidatos nacionais ou se tentará estadualizar sua campanha.

A questão ganha importância porque o eleitorado de Mato Grosso apresentou forte identificação com a direita nas últimas eleições presidenciais.

Pivetta precisará, portanto, disputar esse eleitor sem contar automaticamente com o candidato presidencial do PL em seu material político.

Ao mesmo tempo, a neutralidade nacional do Republicanos pode permitir que sua campanha tente reunir eleitores que não necessariamente estejam comprometidos com um dos polos presidenciais.

Essa liberdade, contudo, depende de como as próprias lideranças que formam sua coligação se posicionarão.

OPERAÇÃO HERITAGE COMPLICA ARRANQUE

O desafio presidencial não é o único enfrentado por Pivetta no início da campanha.

A deflagração da Operação Heritage atingiu dois personagens centrais de seu projeto político: o ex-governador Mauro Mendes, principal liderança do grupo, e Fábio Garcia, escolhido para ocupar a vaga de vice.

Com isso, enquanto Wellington administra uma crise política provocada pela formação de sua chapa, Pivetta começa a campanha tendo de lidar com os reflexos de uma investigação que alcançou o núcleo do grupo que o sustenta.

A operação não altera, por si só, a situação jurídica das candidaturas, e a investigação está em andamento. Politicamente, porém, colocou o Caso Oi no centro do debate eleitoral justamente no momento em que as campanhas começam a se organizar.

Pivetta passa, portanto, a administrar duas questões simultâneas: os efeitos da Heritage sobre seu grupo e a construção de uma identidade nacional para sua candidatura.

NATASHA TEM ARRANQUE MAIS LINEAR

Entre as três principais candidaturas, Natasha começa com um desenho partidário menos conflituoso.

Enquanto Wellington enfrenta divergências dentro do campo que deveria sustentar sua candidatura e Pivetta precisa administrar a indefinição presidencial e os reflexos da Heritage, Natasha conseguiu reunir em torno de seu nome as principais forças da esquerda mato-grossense.

Isso não significa que sua candidatura tenha necessariamente maior força eleitoral — essa avaliação depende das pesquisas e da evolução da campanha. Significa apenas que, no ponto de partida, há maior correspondência entre seu campo estadual e o campo político nacional.

Essa característica pode simplificar a comunicação da campanha.

O eleitor que se identifica com o projeto nacional da esquerda encontra em Mato Grosso uma candidatura estadual situada no mesmo campo, sem a necessidade de administrar uma divisão semelhante à encontrada na centro-direita.

O desafio de Natasha será outro: transformar essa unidade partidária em expansão eleitoral para além do eleitorado já identificado com a esquerda.

ELEIÇÃO NACIONAL PODE ATRAVESSAR DEBATE LOCAL

A intensidade com que a eleição presidencial influenciará a escolha para governador ainda será medida durante a campanha.

Há duas estratégias possíveis em disputa.

Uma delas é a nacionalização: apresentar a eleição estadual como extensão do confronto pelo Palácio do Planalto.

Outra é a estadualização: concentrar o debate em saúde, educação, infraestrutura, segurança pública, economia e desempenho das administrações estaduais.

Wellington possui razões políticas para aproximar as duas eleições. Seu partido tem candidato próprio à Presidência e ele já procura associar sua candidatura ao campo bolsonarista.

Pivetta, sem presidenciável oficial do Republicanos, possui maior incentivo para tentar manter o debate concentrado em Mato Grosso.

Natasha, por sua vez, pode aproveitar a identidade com o campo nacional de esquerda sem abandonar a necessidade de construir uma candidatura estadual própria.

DOIS MAPAS ELEITORAIS

As alianças revelam, assim, dois mapas sobrepostos.

No primeiro está a disputa pelo Palácio Paiaguás, com partidos formando coligações a partir das circunstâncias políticas de Mato Grosso.

No segundo está a corrida presidencial, na qual as mesmas legendas podem ocupar posições diferentes.

O exemplo mais evidente é justamente o Republicanos: participa diretamente da candidatura de Pivetta em Mato Grosso, mas nacionalmente preferiu não aderir a Flávio Bolsonaro.

O PL está na situação oposta. Possui candidato próprio ao Governo e candidato próprio à Presidência, oferecendo a Wellington uma linha eleitoral nacional mais clara. Flávio Bolsonaro foi oficialmente escolhido pelo partido em 25 de julho e, posteriormente, anunciou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente.

Mas a clareza nacional não eliminou as divergências estaduais.

É justamente aí que a campanha de Mato Grosso ganha uma característica particular: o candidato com o palanque presidencial mais definido enfrenta dificuldades para unificar seu partido no Estado; o candidato com uma coalizão estadual ampla não possui candidato presidencial oficial; e a candidata da esquerda começa com maior correspondência entre seus aliados estaduais e nacionais.

A eleição presidencial, portanto, não será apenas pano de fundo da disputa pelo Governo.

Ela passa a integrar as estratégias dos candidatos e poderá determinar agendas, visitas de lideranças nacionais, propaganda eleitoral e alianças municipais durante os próximos meses.

Wellington, Pivetta e Natasha começam a campanha olhando para o Palácio Paiaguás. Mas uma parte importante da batalha eleitoral de Mato Grosso será definida pela maneira como cada um conseguirá — ou decidirá não — conectar sua candidatura à disputa pelo Palácio do Planalto.





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