O governo Lula (PT) mantém a estratégia de negociar com os Estados Unidos para tentar reverter o tarifaço imposto aos produtos brasileiros, mas avalia que uma solução para o impasse será dificilmente construída antes das eleições de outubro.
A expectativa ganhou ainda mais força às vésperas da possível confirmação de uma terceira etapa da ofensiva tarifária americana: uma sobretaxa adicional de 12,5%, prevista para ser anunciada até sexta-feira 24, resultado de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre cadeias produtivas com suposto uso de trabalho forçado. A medida atingiria dezenas de países, incluindo o Brasil.
No Palácio do Planalto, a leitura é que a Casa Branca não tem interesse em flexibilizar as tarifas neste momento. Qualquer recuo antes da eleição, avaliam auxiliares, poderia ser interpretado como uma vitória do governo petista. A avaliação interna é de que Donald Trump prefere aguardar o resultado das urnas, diante da expectativa de que um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresente maior disposição para aceitar condições rejeitadas pela atual gestão petista durante as negociações comerciais.
Mesmo diante da dificuldade, o governo não abandonará a mesa de negociação. A estratégia é preservar os canais diplomáticos, ampliar o diálogo com os setores atingidos pelas tarifas e buscar alternativas para reduzir os impactos sobre as exportações brasileiras, enquanto tenta manter espaço para uma futura retomada das conversas com Washington.
Essa postura também influencia a forma como o Planalto trata a Lei da Reciprocidade Econômica. Embora o instrumento já esteja disponível para responder a medidas unilaterais adotadas por outros países, a orientação do governo é evitar uma reação imediata. Além do tempo necessário para consultas públicas e avaliação dos impactos econômicos, integrantes do governo consideram que uma retaliação às vésperas da eleição poderia alimentar a narrativa defendida pelos bolsonaristas e ampliar a escalada da disputa comercial.
Na terça-feira 21, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) reforçou que a reciprocidade não será aplicada de forma automática. “A ideia não é retaliação. Dizem que olho por olho, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos.” Em seguida, acrescentou: “A reciprocidade é: ‘Olha, nós estamos sendo injustiçados e nós queremos corrigir isso.’ Nós temos instrumentos para fazê-lo, no momento oportuno, da forma adequada.”
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, adotou tom semelhante. Após reuniões com representantes dos setores afetados, também na terça-feira, afirmou que o governo continuará buscando uma solução negociada e descartou estabelecer prazo para uma eventual reação. “Continuar negociando, essa é a orientação”, declarou. Ele também reforçou que “a lei não nos dá o direito de perder a razão” e afirmou que o mecanismo de reciprocidade será utilizado apenas “quando for adequado e necessário”, após análise dos efeitos sobre a economia brasileira.
Enquanto isso, o governo acompanha a expectativa de que os Estados Unidos confirmem a nova sobretaxa de 12,5%, distinta da tarifa de 25% aplicada ao Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. Ainda não há confirmação oficial se as alíquotas serão cumulativas, hipótese considerada provável por integrantes do governo e do setor produtivo.






