Em áudio registrado na caixa-preta, piloto comparou avião a um “fusquinha”. O copiloto demonstrou preocupação com a rota e com a possibilidade de entrar em área de formação de gelo. “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”, afirmou. Em meio aos alertas, o comandante comparou o avião a um carro antigo, em tom de ironia. “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo”, disse.
O voo não deveria ter ocorrido. A investigação concluiu que o comandante do voo tinha pleno conhecimento de que o sistema de degelo do avião havia falhado no trecho imediatamente anterior. Além disso, a aeronave operava com os limpadores de para-brisa inoperantes, o que, pela Lista de Equipamentos Mínimos — regra que define se um avião pode decolar com itens quebrados —, proibiria o voo caso houvesse previsão de chuva no destino, o que era o caso de Guarulhos. Mesmo assim, o despacho operacional da Voepass liberou a aeronave e o piloto aceitou o comando.
Falhas de manutenção agravaram o cenário. A perícia constatou que uma inspeção preventiva no sistema de degelo estava atrasada em mais de 73 horas de voo. Além disso, os peritos concluíram que a causa mais provável para erros nos dados de um sensor do profundor (superfície que controla o nariz do avião para cima ou para baixo) foi uma instalação incorreta por erro humano em manutenções passadas. Essas lacunas na preservação e no cuidado técnico da aeronave completaram o ciclo de falhas que levou à queda.
A tripulação perdeu o controle no momento crítico. Durante a formação de gelo severo, os pilotos falharam em executar os procedimentos de emergência previstos nos manuais, segundo o laudo. Em vez de focarem em recuperar a velocidade e sair da área de perigo, eles mantiveram o foco em tarefas rotineiras de cabine, como listas de verificação para o pouso, perdendo uma janela de apenas 20 segundos que poderia ter evitado a queda.
Perícia da PF reconstruiu os últimos voos da aeronave antes da queda em Vinhedo. Relatório de 200 páginas descreveu uma sequência de falhas intermitentes no sistema pneumático de degelo. Embora a omissão e a manutenção tenham criado o cenário de risco, o laudo define a causa final do acidente como a perda de controle em voo. Tal perda foi resultado da combinação de: acúmulo de gelo severo que superou a proteção da aeronave, inoperância do sistema de degelo (que não havia sido consertado devido às omissões citadas) e não execução dos procedimentos de emergência.
As conclusões do inquérito serão anunciadas hoje. O laudo da PF é peça-chave da investigação. Com base no documento e em dezenas de depoimentos, a Polícia Federal vai apontar os responsáveis pelo acidente. O UOL apurou que 17 pessoas devem ser indiciadas.




