A estratégia já estava sugerida desde o jingle inspirado no Rap do Silva: sem ter o que mostrar após um terceiro mandato presidencial frustrante, Lula tentará convencer os brasileiros de que merece um quarto mandato recuperando suas origens sindicais, as configurações de fábrica.
O reset foi reafirmado no domingo, 2, quando o pavilhão da convenção do PT que formalizou a candidatura a reeleição do presidente estava todo envelopado com alusões ao Lula sindicalista.
Recuperar o passado de Lula faz sentido do ponto de vista da apresentação para o eleitorado mais jovem, que não tem enxerga o petista, tão afeito a usar roupas de grife, como esse homem do povo.
O sinuoso discurso antissistema também depende disso para ser minimamente crível — e, mesmo assim, é preciso ter muito boa vontade para acreditar que Lula não faz parte do sistema.
Não deu certo
Mas o retorno do Lula metalúrgico como argumento é também a indicação de que tudo o que veio depois não deu certo. O petista deixou o segundo mandato com grande popularidade, porque governou pensando em si mesmo, e quem pagou o preço foi Dilma Rousseff, sua criatura, anos depois, com um país endividado e ingovernável.
Lula sentiu a necessidade de tentar um terceiro mandato quando o risco de prisão se avizinhou. Ele não conseguiu evitar a detenção, mas a candidatura em 2018 o manteve politicamente vivo, a ponto de ser solto meses depois, abrindo o caminho para soltar todos os outros condenados da Lava Jato.
A candidatura de 2022 tinha o claro objetivo de limpar sua biografia. Não deu.
O país estava diferente, o mundo estava diferente, e Lula tentou ser o mesmo.
O petista reciclou antigos programas de governo, incentivou o endividamento para depois se apresentar como solução para as dívidas, com o Desenrola 1, o Desenrola 2, o Desenrola…
Lula passou meses dizendo que a colheita chegaria, que tem o sonho de ver o pobre fazer três refeições por dia, tentou se apresentar como referência mundial, mas nada disso aconteceu.
Fantasia
Para conseguir dar alguma esperança aos brasileiros, o presidente de 80 anos precisa agora fingir que voltou a ter 40, que está com a melhor saúde da vida, que corre mais rápido que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), e o que seu partido não governou o Brasil por 20 anos.
O Brasil rejeitou o Lula sindicalista em 1989, em 1994 e em 1998. O operário tomou um banho de loja em 2002 para conseguir convencer o país de que merecia uma chance.
Agora, ele volta a se vestir, pelo menos no discurso, porque parece difícil largar as grifes, como o homem do chão de fábrica. Nem o rebaixado Carnaval da Acadêmicos de Niterói ousou tanto.
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