Durante o depoimento do fundador do banco Master, Daniel Vorcaro, à Polícia Federal, em 30 de dezembro de 2025, o advogado de defesa Roberto Podval disse que seu cliente não iria revelar a senha do celular que havia sido apreendido pela operação Compliance Zero.  No entender da defesa, se a PF tivesse acesso ao conteúdo do aparelho isso poderia comprometer a privacidade pessoal de Vorcaro.

Podval não explicou que tipo de dado teria o efeito de causar algum constrangimento ao seu cliente. Essa do advogado está gravada em vídeo registrado durante o depoimento que foi realizado na sede do Supremo Tribunal Federal. O Poder360 teve acesso às imagens.

O sigilo das comunicações dele [Vorcaro] –e a nossa preocupação– menos tem a ver com qualquer relação comercial do banco empresarial, mas com relações pessoais e privadas”, disse o advogadoA PF até agora não revelou se conseguiu descriptografar o celular do investigado que foi apreendido quando Vorcaro foi preso, em 17 de novembro de 2025. 

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“A grande preocupação que se tem, obviamente, não é o banco. O banco está aí, aberto. Todo mundo sabe que a preocupação enorme que se tem é com relações absolutamente pessoais, que não tem nenhuma relação atinente ao banco. Para nós, era muito mais fácil abrir tudo e entregar tudo. Mas nós podemos envolver pessoas em relações absolutamente pessoais e particulares, que não têm nenhuma relação com o que nós estamos tratando”, continuou. Ele não especificou de quem estava falando.

A defesa também declarou que a delegada federal responsável pelo caso, Janaina Pereira Lima Palazzo, havia pedido acesso ao celular de Vorcaro, com a garantia de que haveria um “sigilo absoluto”. Contudo, a defesa entendeu que há vazamentos da investigação que poderiam comprometer a “privacidade pessoal”.

A discussão voltou à tona durante o início da acareação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-diretor do BRB (Banco de Brasília). Na hora, o advogado queixou-se do vazamento das perguntas da PF à imprensa e pediu que o caso fosse apurado em um inquérito separado.

Então, só para deixar claro, respondendo sua pergunta [da delegada], quando me diz: o senhor abre o celular? […] Tem sigilo absoluto! O sigilo era absoluto e não deu 20 minutos as questões estavam todas ali colocadas [na imprensa]”, declarou.

O embate aconteceu durante o depoimento, em 30 de dezembro, na sala de audiência do STF. Em 14 de janeiro, o ministro Dias Toffoli autorizou a 2ª fase da Operação Compliance Zero, que chegou a apreender os celulares do banqueiro. As provas colhidas estão sob a análise de peritos federais indicados pelo ministro

O Poder360 teve acesso a trechos do depoimento em vídeo. 

Os arquivos de vídeo publicados pelo Poder360 estão disponíveis para todas as partes citadas no inquérito e os advogados. O material está arquivado no STF e na Polícia Federal. Os advogados receberam os arquivos completos e compartilharam com seus clientes e assessores. Os vídeos aos quais o Poder360 teve acesso são esses que estão à disposição das defesas dos citados no caso do Banco Master.

Leia a interação.

Delegada Janaína Palazzo: Eu também gostaria de fazer um pedido, que é a autorização telemática do sigilo do seu celular. (…) Se o senhor autorizaria para que a gente fizesse a extração em análise.

Roberto Podval: Então a autorização dele do sigilo telemático está vinculada à liberdade dele?

Delegada: Eu não estou fazendo uma troca, doutor. Eu estou fazendo um pedido da mesma forma que o senhor fez, para ser submetido a apreciação da defesa. 

Podval: Claro, está submetido e fica aqui então. Isso me lembra a vinculação da liquidação com a prisão. Está muito parecida e no mesmo horário e no mesmo momento. Mas fica aqui o nosso pedido – e eu posso até, se preferirem, trazer por escrito – para que seja revogado os termos das cautelares aí, 

Ubiratan Cazetta: Por uma questão de organização, embora feito na sala do Supremo e por ordem do Ministro Toffoli, [o depoimento] ainda é um ato dentro do inquérito. Esse pedido [do fim das cautelares] tem que ser submetido à jurisdição, ainda que temporária, do próprio Supremo. A delegada não tem capacidade decisória para falar sobre a prisão. 

Podval: É só para o inquérito estar com ela, estou imaginando que ela tenha. Eu vou pensar no seu pedido. Eu vou pensar, vou pensar, refletir. Ele [Vorcaro] certamente autorizaria.

Daniel Vorcaro: E eu estou feliz de ter sido marcado com rapidez e que se estabeleça verdade nisso. É o que mais quero. Porque eu vou fazer tudo que for possível para a gente estabelecer a verdade. E eu não estou falando que o banco era perfeito, que eu sou perfeito, que a gente nunca errou. Mas essa fraude colocada não existiu e não era para o banco ter sido liquidado. Não era para eu estar passando por isso.

Podval: O sigilo das comunicações dele -e a nossa preocupação- menos tem a ver com qualquer relação comercial do banco empresarial, mas com relações pessoais e privadas. E pelo que a gente assistiu, infelizmente…

Vorcaro: Um vazamento de coisas pessoais…

Podval: A gente obviamente sabe que está falando com gente séria aqui. Mas a grande preocupação que se tem, obviamente, não é o banco.

O banco está aí, aberto. Todo mundo sabe que a preocupação enorme que se tem é com relações absolutamente pessoais, que não tem nenhuma relação atinente ao banco. Para nós, era muito mais fácil abrir tudo e entregar tudo. Mas nós podemos envolver pessoas em relações absolutamente pessoais e particulares, que não têm nenhuma relação com o que nós estamos tratando.

Então a gente talvez sofra o ônus disso. Mas há um cuidado muito grande por conta disso. 

BANCO MASTER 

A PF apura um esquema de fraudes bilionárias contra o sistema financeiro e os suspeitos de bancar a operação são os sócios do Master e fundos de investimento. Desde dezembro, o caso está sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, por haver indícios de envolvimento de autoridade com prerrogativa de foro

A liquidação extrajudicial do Master e do Will Bank representou o maior rombo bancário do país. Segundo as investigações, o esquema consistia na venda de títulos de renda fixa de alto rendimento, como CDBs (Certificados de Depósito Bancário), que serviam para financiar fundos de investimento, cujo banco era o único cotista. O MPF (Ministério Público Federal) afirma que o negócio se baseava em circular ativos sem riquezas, forjando artificialmente os resultados financeiros.



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