Início NACIONAL Dois relatórios e um Supremo

Dois relatórios e um Supremo


No dia 9 de fevereiro deste ano, quatro delegados da Polícia Federal – Daniel Mostardeiro Cola, Guilherme Alves de Siqueira, Wedson Cajé Lopes e Victor Arruda de Oliveira –, assinaram um relatório sigiloso de 196 páginas descrevendo as relações pessoais e de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, cujo conteúdo a piauí revela com exclusividade nesta reportagem, dedica especial atenção a José Antonio Dias Toffoli. Havia uma razão para explicar o foco em Toffoli. Sorteado relator do caso Master no Supremo, o ministro tomara, desde o fim de 2025, uma série de decisões que dificultaram o avanço das investigações sobre o banco e seu dono. A Polícia Federal agora descobria que, enquanto conduzia o processo de maneira enviesada, o ministro mantinha relações até então desconhecidas com o principal investigado.

Assim que ficou pronto, o relatório foi encaminhado ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Diante da gravidade do que seus subordinados haviam encontrado, Rodrigues pediu uma audiência com o presidente do STF, Luiz Edson Fachin. O relatório também trazia mensagens extraídas do celular de Vorcaro que revelavam a proximidade do banqueiro com outro ministro, Alexandre de Moraes, mas, nesse caso, eram apenas uma pequena amostra do que ainda viria à tona.

A PF analisou dezessete contatos telefônicos entre Vorcaro e Toffoli e cruzou as ligações com mensagens em que o banqueiro e seus interlocutores tratavam de encontros, negócios, festas e viagens envolvendo ministros do Supremo, outros integrantes do Judiciário e membros do Congresso. Um personagem aparece repetidamente nas conversas: Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro. Faria serviu inicialmente como ponte entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, antes que banqueiro e ministro adquirissem intimidade suficiente para trocar mensagens diretamente. Também fazia a interlocução de Vorcaro com Toffoli, embora, nesse caso, as ligações diretas entre os dois indiquem que o intermediário não era indispensável.

O relatório vai além das relações pessoais. Os investigadores reconstituem a maneira como Vorcaro abasteceu estruturas empresariais e fundos ligados a familiares de Toffoli. Nas conversas interceptadas, o resort Tayayá é chamado por Faria de “a fazenda de Toffoli”. A PF identificou ainda doze encontros marcados entre o banqueiro e o ministro, em Brasília, São Paulo e Londres.

É em Londres que uma dessas relações ganha contornos particularmente delicados. Em abril de 2024, o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias reuniu autoridades brasileiras na capital britânica. O evento foi financiado quase integralmente pelo Master. As mensagens analisadas pela PF mostram que os custos da viagem cresceram vertiginosamente, e que pessoas envolvidas na organização chegaram a advertir Vorcaro sobre o risco de o banco pagar tantas despesas das autoridades convidadas.

Em 20 de abril, Leonardo Serrano Giunchetti, da SL Consulting, responsável pela logística da viagem, avisou Vorcaro de que os gastos com hospedagem no Hotel The Peninsula haviam aumentado, entre outras razões, porque autoridades fizeram upgrades em seus quartos. A conta do hotel chegaria a 760 mil libras (cerca de 5 milhões de reais) por três dias. Em mensagens posteriores, o valor subiria para 850 mil libras (cerca de 6 milhões de reais).

Giunchetti explicou ao banqueiro que o contrato com o hotel estava em nome do Grupo Voto, organizador do fórum, mas que o grupo arcaria com apenas 90 mil libras. O restante sairia, na prática, dos cofres de Vorcaro. E fez uma advertência explícita: “Todos esses upgrades de quartos de autoridades, etc., serão conta nossa. Isso, em teoria, por lei, não pode.” Não fica claro a que lei Giunchetti se referia. O Código de Conduta e Ética do STF proíbe o recebimento de presentes ou brindes que valham mais do que 1% da remuneração mensal de um ministro, que atualmente é de 46.366 reais brutos. A regra, porém, se aplica somente aos servidores do tribunal, e não aos próprios ministros. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) veda que magistrados recebam presentes ou vantagens que possam comprometer sua isenção. Mas, até hoje, nenhum ministro do Supremo foi punido por aceitar a generosidade alheia. 

Havia ainda uma maneira de evitar que as diárias aparecessem de forma tão evidente. Segundo Giunchetti, embora o dinheiro viesse de Vorcaro, a nota do hotel seria emitida em nome do Grupo Voto. O problema, escreveu ele, era que o “fluxo financeiro” deixaria clara a verdadeira origem dos recursos. “Acho que tudo bem, né? Pois quero evitar dar M para vocês depois”, acrescentou. Vorcaro respondeu que não haveria problema.

Em 23 de abril, véspera do início do evento, Vorcaro demonstrou preocupação em desvincular o nome do Master do encontro em Londres. Pediu a Giunchetti que retirasse “Master da lista de convidados” e disse que era preciso evitar, “a qq custo”, a exposição do banco e a sua própria. No dia seguinte, voltou ao assunto. “O negócio do pgto do hotel pode dar merda grande. Vc tem que pedir invoice total pra Voto”, escreveu, referindo-se à fatura do Peninsula. Giunchetti respondeu que a providência já estava encaminhada.

Vorcaro se ocupava dos mínimos detalhes da viagem. Sua atenção a eles, porém, contrastava com a que dispensava às contas que deveria pagar. Em uma das conversas, pediu a Giunchetti que providenciasse alguém do hotel para esperá-lo com as chaves do quarto, evitando que tivesse de passar pelo lobby com a roupa esportiva e o capuz que usara durante a viagem. Já durante o evento, avisou a Giunchetti que alguns convidados “mais velhos” passariam pelo hotel antes da famosa degustação de uísque Macallan prevista para aquele dia. Orientou Giunchetti a providenciar uísque do próprio hotel para servi-los enquanto a degustação não começasse. Por aqueles mesmos dias, Giunchetti enviou a Vorcaro uma cobrança de 2 milhões de dólares para ressarcir despesas do evento. O banqueiro não respondeu. Dias depois, cobrado novamente, determinou que a fatura fosse encaminhada à Moriah Asset, empresa que tinha como sócio seu cunhado, Fabiano Zettel.

Só a degustação de Macallan custou a Vorcaro o equivalente a 3,3 milhões de reais, despesa paga, segundo as mensagens, com seu cartão de crédito. Dos mais de sessenta convidados do fórum, 23 participaram da degustação, um gasto de aproximadamente 145 mil reais por cabeça apenas naquele fim de tarde. Entre as cabeças estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes; o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; o presidente da Câmara Hugo Motta; o ex-ministro Ciro Nogueira; o procurador-geral da República Paulo Gonet; o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski; e os ministros do Superior Tribunal de Justiça Luis Felipe Salomão e Benedito Gonçalves. 

Ao final da degustação, cada participante recebeu uma garrafa de uísque avaliada em 1.800 libras, cerca de 12,4 mil reais pela cotação atual.

Além da proximidade entre Vorcaro e Toffoli, o relatório da PF concluído em fevereiro registra outro dado que não recebeu destaque no documento entregue por Andrei Rodrigues a Fachin: Alexandre de Moraes participou da organização do evento em Londres. As mensagens atribuídas ao ministro mostram que ele sugeriu convidados, fez convites pessoalmente e aprovou o cronograma da viagem. O próprio Toffoli, em nota enviada à piauí, afirma que “sua participação no referido evento de Londres se deu a convite do colega de Corte ministro Alexandre de Moraes”. O ministro diz também que “jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro”.

Fabio Faria encaminhou a Vorcaro uma lista atribuída a Moraes com nomes que o ministro pretendia convidar. Nela, estavam representantes dos principais órgãos do sistema de Justiça, de Gilmar Mendes e Flávio Dino a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet, além de dois amigos próximos de Moraes: Floriano Peixoto, ministro do TSE, e José Levi Mello, então no Cade. “Preciso ter os dias certos, local, hotel, para fazer os convites oficiais”, dizia uma das mensagens atribuídas a Moraes e repassadas por Faria. “Ele mesmo vai convidar”, explicou a Vorcaro.

Dias depois, o empresário Márcio Chaer, sócio do site ConJur, confirmou ao banqueiro que Moraes “realmente mandou WhatsApp para os colegas”. Contou ter falado com Gilmar Mendes, que confirmara o recebimento do convite, mas ainda avaliava se iria. “Difícil alguém não aceitar convite de AM”, escreveu Chaer. Segundo ele, o ministro Luis Felipe Salomão dissera que, “como o Xandão nunca nega fogo”, iria de qualquer maneira. Em seguida, Chaer encaminhou a Vorcaro a mensagem que Moraes enviara a Mendes: “Gostaria de te convidar para participar de um evento jurídico-político em Londres, de 24 a 27 de abril, com a presença do Financial Times, inclusive. Serão homenageados o presidente Temer e o presidente do Senado, nosso amigo Rodrigo Pacheco. Vc participaria de um painel. A estadia será até 28/4. É organizado por Conjur, Correio Braziliense e Banco Master.”

A formulação dava a impressão de que ConJur, Correio Braziliense e Master dividiam a organização do encontro em condições semelhantes. Havia, porém, uma diferença fundamental: dos três, apenas o Master financiava o evento. Vorcaro voltou a manifestar preocupação com a exposição do banco como patrocinador. Chaer o tranquilizou: “Do jeito que o ministro colocou, fica sóbrio.”

Moraes aparece ainda em outra etapa dos preparativos. Em uma troca de mensagens, Leonardo Serrano Giunchetti informou a Vorcaro que o cronograma do evento havia sido aprovado pelo ministro. A única objeção de Moraes, segundo o operador, fora ao aviso sobre o dress code para o jantar na Wallace Collection. O ministro teria considerado desnecessário e até ofensivo orientar os convidados sobre o traje, já que ministros usavam terno rotineiramente.

As mensagens não esclarecem por que o banqueiro se empenhava tanto em evitar que o Master aparecesse como financiador da viagem. Outros braços da investigação, porém, ajudam a dimensionar o momento vivido pelo banco. Em 2024, enquanto Vorcaro gastava milhões de reais para reunir autoridades brasileiras em Londres, o Master já enfrentava dificuldades para financiar sua própria operação.

O Banco Central havia identificado irregularidades e crescia no mercado a percepção de que as taxas oferecidas pelos CDBs do Master eram insustentáveis. Naquele ano, Vorcaro precisava captar pelo menos 15 bilhões de reais para reequilibrar o balanço do banco e honrar os compromissos com investidores. Até o fim de 2024, conseguiu apenas 2 bilhões. Ao longo do ano, o BC enviou nove ofícios cobrando do Master providências para obter recursos suficientes para honrar os rendimentos de seus títulos.

O relatório entregue a Fachin em fevereiro tem semelhanças importantes com outro documento produzido pela PF, desta vez sobre Alexandre de Moraes, cujo sigilo foi levantado por André Mendonça na semana passada, desencadeando uma crise sem precedentes no STF. Os delegados que assinam os dois relatórios são os mesmos. A fonte das informações também: o celular apreendido de Daniel Vorcaro, identificado pelo mesmo número de IMEI nos dois documentos. A metodologia e a estrutura se repetem. O que muda é o foco e o destino.

O relatório sobre Toffoli, com data de fevereiro, foi espontaneamente elaborado pela PF. O relatório sobre Moraes, datado de agosto, foi requerido de ofício pelo ministro André Mendonça, com prazo de urgência de 72 horas. Não fica claro por que a PF tomou a iniciativa quando o alvo era Toffoli, mas não o fez com Moraes. O que se sabe é que, de posse do relatório sobre Moraes, no dia 28 de agosto, Mendonça decretou sigilo grau 4, o máximo possível no sistema do STF. E quatro dias depois, retirou o sigilo, encaminhando o relatório ao presidente Edson Fachin para a possível adoção de medidas.

Sobre o relatório de fevereiro, Mendonça não determinou nenhuma diligência equivalente à que requisitaria em agosto, nem sobre as relações de Vorcaro com Toffoli, nem sobre as de outros ministros da corte, como Kassio Nunes Marques, cujo filho advogado recebeu recursos com origem no banco Master, como mostrou a piauí. Procurado pela reportagem, Mendonça disse que o relatório não havia sido endereçado a ele, embora, como relator do caso, ele pudesse ter solicitado acesso. Toffoli, por sua vez, afirmou o seguinte: “Em relação ao citado relatório, desde logo cabe dizer que ele foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado”. Também afirmou que “conforme nota oficial do STF, do dia 12 de fevereiro de 2026, os dez ministros tiveram ciência de todo o seu conteúdo e das devidas informações preparadas pelo ministro tanto no formato escrito quanto presencialmente, deliberando não ser o caso de suspeição. Previamente o presidente Edson Fachin já havia rejeitado o pedido de distribuição como inquérito. Decisões estas, repita-se, transitadas em julgado.”

Há uma imprecisão. Quando se reuniram, em fevereiro, os dez ministros arquivaram a arguição de suspeição contra Toffoli, mas não o relatório que a embasou. Esse documento, e toda a investigação que levou até ele, continuaram sob a posse da PF e, portanto, poderiam ter motivado novas diligências. Poderiam, também, ter tido o seu sigilo levantado. O relator, André Mendonça, não fez nem uma coisa nem outra.

Os despachos de Mendonça que alvejam Moraes se concentraram entre 24 de agosto e 1º de setembro. O timing chama atenção: o sigilo foi retirado por ele apenas 33 dias antes do primeiro turno da eleição presidencial e menos de cinco horas depois que a piauí revelou que o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mentiu sobre os pagamentos que Vorcaro fez a pretexto de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Moraes é o algoz do ex-presidente. E foi Bolsonaro quem indicou para o STF André Mendonça, que em seu governo foi advogado-geral da União e ministro da Justiça.

No relatório de fevereiro, a PF reúne, ao longo de 196 páginas, elementos que poderiam levantar dúvidas sobre a imparcialidade de Dias Toffoli para conduzir o caso Master. No documento mais recente, essa linha de apuração praticamente desaparece, reduzida a uma menção incidental. Com o mesmo material e método semelhante, os investigadores passam a construir um caso sobre as relações de Alexandre de Moraes com Vorcaro.

Até alguns dos personagens se repetem: Fabio Faria, Márcio Chaer e Ana Matos aparecem nos dois documentos. Há mensagens que também são reproduzidas em ambos. Uma delas é a conversa em que Chaer relata a Vorcaro as movimentações de Moraes para convidar Gilmar Mendes ao evento de Londres. O diálogo é o mesmo. A interpretação dada a ele, não.

No relatório sobre Toffoli, a PF apresenta a conversa no contexto das tentativas de Vorcaro de evitar que o Master aparecesse publicamente como financiador do evento. No relatório sobre Moraes, o mesmo diálogo é destacado como evidência da participação do ministro na organização do encontro.

Há uma característica importante nos dois documentos. Eles não são relatórios finais de investigação, não propõem indiciamentos nem solicitam novas diligências. São levantamentos produzidos pela PF a partir de buscas em seu banco de dados e destinados a fornecer informações para o prosseguimento das investigações. As hipóteses neles reunidas, portanto, não são conclusões dos delegados sobre a prática de crimes.

Foi sobre esses dois documentos de natureza semelhante que recaíram tratamentos radicalmente diferentes. Quando decidiu levantar o sigilo do relatório sobre Moraes, Mendonça tinha conhecimento da existência do levantamento anterior, centrado em Toffoli.  O primeiro permaneceu sob sigilo e sem consequência processual. Sobre o segundo, Mendonça determinou à PF que aprofundasse a análise das mensagens, encaminhou o resultado à Procuradoria-Geral da República, levantou seu sigilo e levou o caso para apreciação do plenário do Supremo.

O resultado foi uma assimetria: as informações reunidas pela PF sobre Moraes vieram a público e provocaram uma crise no Supremo; aquelas que diziam respeito a Toffoli permaneceram desconhecidas até agora. A decisão de Mendonça determinou, na prática, qual dos dois ministros seria submetido ao escrutínio público, e quando. 

A crise que agora coloca Moraes e Mendonça em lados opostos, levou ao afastamento de Andrei Rodrigues da PF – decisão depois revertida – e abriu uma disputa sobre os limites da atuação do Supremo começou, em parte, com uma decisão seletiva de um dos ministros.

Segundo o artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura, quando surgem indícios da prática de crime por um magistrado, a autoridade responsável pela investigação deve remeter os autos ao tribunal competente. Foi o que Andrei Rodrigues fez em 9 de fevereiro. Naquela noite, Toffoli divulgou uma nota em que classificou as informações reunidas pela PF como “ilações” e afirmou que a corporação não tinha legitimidade para pedir sua suspeição. O relatório, porém, não fazia esse pedido. Três dias depois, Fachin convocou os ministros do Supremo para discutir o material entregue pela PF.

Os detalhes da reunião foram publicados pelo Poder360, que reproduziu falas literais dos dez ministros presentes, grau de precisão que levantou dentro do tribunal a suspeita de que o encontro tivesse sido gravado. A reportagem também permitiu reconstituir como cada ministro recebeu as descobertas da PF. Cármen Lúcia foi a única a afirmar expressamente que não havia lido o relatório. Cristiano Zanin, por outro lado, demonstrou ter examinado o documento em maior detalhe. Entre as informações sobre Toffoli, disse ter chamado sua atenção a descoberta de que Vorcaro cogitara contratar uma empresa israelense de inteligência. Nada além.

A maior parte dos ministros, porém, concentrou a discussão menos no conteúdo das descobertas do que na maneira como a PF havia chegado até elas. Gilmar Mendes sugeriu que o relatório era uma retaliação. “Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar.” 

Zanin questionou a própria extensão do levantamento. Disse ser relator de um processo envolvendo três ministros do Superior Tribunal de Justiça há um ano e meio e jamais ter recebido da PF quantidade comparável de informações. “Isso aqui tudo é nulo”, concluiu. Nunes Marques foi ainda mais taxativo: “Para mim, isso é um nada jurídico.” E acrescentou: “Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação.”

André Mendonça também saiu em defesa de Toffoli. Para ele, as mensagens reunidas pela PF não demonstravam proximidade entre o colega e Vorcaro. “Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado.”

Flávio Dino fez a defesa mais veemente de Toffoli. “Essas 200 páginas para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]”, afirmou. Dino criticava a intenção de Fachin de levar a questão ao plenário no dia seguinte e defendia que o presidente do Supremo resolvesse o impasse internamente. Ao falar das hipóteses que, em sua opinião, justificariam uma arguição contra um integrante da Corte, mencionou apenas crimes de extrema gravidade, como estupro e pedofilia, desde que houvesse provas. E resumiu sua posição: “Em qualquer outro pedido de arguição eu sou STF futebol clube.”

O Poder360 não publicou a fala de Moraes naquela reunião, mas relatou o que ele dissera em um encontro mais reservado pouco antes. Moraes teria antecipado que votaria pela manutenção de Toffoli na relatoria e classificado como “absurdo” o fato de Andrei Rodrigues ter investigado um ministro do Supremo sem autorização. Disse ser “amigo” do diretor-geral da PF, mas sustentou que a corporação havia errado e que, se de fato tivesse havido uma investigação, o material deveria ser anulado. Moraes não reconhecia que, na verdade, havia sido protegido por Andrei Rodrigues. Àquela altura, já era público que o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, havia firmado um contrato de 129 milhões de reais com o Banco Master.

Toffoli terminou a reunião com maioria suficiente para permanecer à frente do caso. Apenas Cármen Lúcia e Fachin sinalizaram ser favoráveis ao seu afastamento e à redistribuição da relatoria. Ainda assim, Toffoli decidiu deixar voluntariamente o processo, numa tentativa de conter a pressão sobre a Corte. Os ministros acertaram também a divulgação de uma nota em desagravo ao colega. No texto, manifestaram “apoio pessoal” a Toffoli, afirmaram respeitar sua “dignidade” e reiteraram a “inexistência de suspeição ou impedimento”.

O relatório que provocara a reunião, porém, permaneceu sob sigilo. E as informações nele reunidas não tiveram o mesmo destino que, meses depois, teriam as descobertas da PF sobre Moraes.

Em nota enviada à piauí, a assessoria de Dias Toffoli afirma que “o ministro jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro”, e que “sua participação no referido evento de Londres se deu a convite do colega de Corte ministro Alexandre de Moraes”.



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